Caminho a passos largos para não me atrasar, pois há deveres a cumprir.
Pé ante pé, lá chego. Respiro fundo, olho atentamente os horários, interiorizo as informações analisadas e encosto-me. Como é bom deixar o organismo repousar.
Inclino a cabeça e deixo o sol banhar-me num dia extraordiariamente abafado, sem brisa que o sossegue.
Sei que não tardará ele há-de chegar.
Eu permaneço no mesmo local onde recuperei o fôlego. Imagino as vidas e as vivências que cada um alberga, os perigos passados, as alegrias encontradas, as semelhanças entre uma e outra história de vida que se quardam os estranhos com tanto em comum. São factos calados, murmúrios que não se expõem em esperas. A que desconhecido revelaria eu segredos, intimidades? Todos nós já fomos um dia estranhos uns para os outros, mas a ocasião presente não é a melhor e a sociedade, fornecendo as devidas normas tão intrinsecamente adquiridas pelos seus membros, determina que não se proporcionem essas trocas e estabelecimentos de confianças. E nós cumprimos, sem o saber conscientemente.
Com um objectivo em comum e com pressa, entramos no transporte que chegou fora de horas. Ele é o meio que nos conduzirá ao destino que escolhemos ou nos foi apresentado, através dele vagueamos por sonhos, fazemos vulgares viagens e continuamos caminho, em anonimato. Como é possível que haja tanto dentro de nós? É um completo mundo.
Pago o que devo pagar, porque nesta vida nada é de graça, e sento-me. Os pesos vão comigo, as vontades não me escapam e deposito total confiança no comum mortal que nos conduz aos locais por onde esperamos passar. Tudo é tão óbvio, tão natural e tão belo.
É nisto que o ser humano devia consistir, mas certo é que ele permanece um mistério ainda por descobrir.
Depois de uma longa espera, outra espera. Sorrio. Sempre vale a pena dar tempo ao tempo. Ele chegou, eu parti e sigo rumo ao que me aguarda.
Pelo espelho que nada reflecte e se apresenta transparente aos meus olhos vejo as ruas em actividade.
Os trabalhos dos homens esforçados que laboram serão compensados, mais dia menos dia. Nao creio que a justiça possa ser tão disfuncional.
E tudo valerá a pena, porque a alma não é pequena e Fernado Pessoa tinha toda a razão. Por agora, sei que tenho muito por que viver e isso sim, é o sustento de todas as minhas satisfações e sorrisos. Dou tempo ao tempo e quando me aproximo do destino, há alguém que me espera. Porque a vida é feita disto, de lutas e esperas. Uns por nós, nós pelos outros e até por nós próprios.