segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O mundo (parte 2)

Atravessando a porta do meu lar, sinto a luz banhando a minha face e o calor que com ela traz, ouço os sons já há muito esquecidos e vejo o que me rodeia, tudo com plena atenção. Ah! Como é bom sentir estes outros ares, estas outras paisagens. Inspiro e expiro. O ar renova-se nos meus pulmões. Já não é aquele gás contaminado com dor, solidão e mágoa. É um outro que contém esperança, saudade e paz.
Sento-me na relva fresca do jardim que situa em frente à minha casa, àquela nossa casa. Tudo me parece tão novo e colorido. Tudo me parece tão bom. E como por magia, esta manhã traz ainda mais boas notícias e acontecimentos.
Olho para a minha esquerda e vejo um amigo, daqueles que me ajudaram no princípio mas a quem renunciei nos tempos que se seguiram. Depois vejo outro. E mais outro. Eles miram-me, espantados, e cada um deles abraça-me. Eu sorrio. Eles sorriem também. Então, contem-me novidades!... Quero saber de tudo o que aconteceu. E o teu trabalho? A tua sogra como vai, já está melhorzinha? … - Vou perguntando. E a conversa prolonga-se até ao final da tarde.
Voltar-nos-emos a ver – prometi. A companhia dos meus camaradas é essencial no processo de recuperação, e não só, devo-lhes muito, devo-lhes a minha amizade, que infelizmente não se mostrou nestes meses, neste ano.
Regresso a casa após aquele tempo de convívio. Já não me assusta o regresso ao Lar. Abro as janelas, mudo os lençóis, limpo o pó e varro o lixo. O aroma Dela ainda está presente e sei que nunca desaparecerá, mas as divisões gritavam por uma limpeza.
Depois adormeço. O meu corpo, arrebatado pela força dos acontecimentos e sensações, deixa-se cair sob a frescura da cama.
Surge um novo dia. Remexo nas coisas dela, não com o intuito de bisbilhotar, mas sim com a vontade de encerrar um capítulo. Esse capítulo negro que não me deixava recordá-La da forma correcta. Que me enchia de pessimismo e cobria de areia os meus olhos, escurecendo as minhas memórias. Revejo tudo com muito carinho, luto para que as lágrimas não caiam, porém algumas escapam-se, e arrumo os objectos com extremo cuidado. Há uma memória Dela em cada canto. Há a presença Dela em cada esquina. Todavia, finalizada a tarefa, consigo lidar com isso com tanto amor como o que Ela sabia que eu sentia. E sim, agora restam somente as saudades da sua presença, a eternidade dos seus actos e gestos, dos seus beijos e toques no meu rosto, de todas as suas acções e características no fundo. Tudo isso permanecerá para sempre.
Amanhece. Volto ao trabalho, retomo os meus horários e sou útil para a sociedade de novo. Afinal ainda não me esqueci como eram feitas as coisas e realizadas as funções. Uma parte da minha vida é dedicada agora à actividade laboral.
E o Sol volta vezes e vezes sem conta.
Recuperei.
Cada dia agora é vivido e sentido.
Cada dia agora é um minuto, é um mês.
Surgem novas aventuras e desafios a que não renuncio. Pois viver já é em si mesmo um deles, tanto uma aventura como um desafio, tanto uma loucura como um acto seguro, tanto uma seriedade como uma leveza. E continuo. Porque era o que Ela queria e porque assim o deveria fazer.
Estou em comunhão com os que me querem bem permanentemente. Olho para o retrato Dela constantemente. Trabalho em cada semana continuamente.
Vou a baixo por vezes, mas sei que não desisto. Tenho a força Dela a mover-me. E falo-lhe todas as noites, revelando-lhe o meu sentir e o decorrer daquelas horas, ou melhor, os acontecimentos que as preencheram. Nada lhe escondo. Nem os amores ou desamores, como Ela referira. Quer dizer, só acontecera por duas vezes, contudo, por respeito a Ela e ao sentimento que nutro e que estará indefinidamente presente, conversei frontalmente com as senhoras em questão e apenas se estabeleceram boas amizades, aliás, nunca fora algo mais, na minha perspectiva.
Assim vivo. Assim existo e actuo. Assim espero por ti Miriam, no fim do meu tempo neste mundo. É o que me guia. A minha maior esperança. Uma certeza já confirmada, talvez...
Até breve, meu amor.

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08 e 09 de Agosto de 2009
Autoria de: Sara Silva.

2 comentários:

Sofia disse...

Olá!

Passo para agradecer a visita. Continua a passar... as portas estão abertas.

Bjinhos,
Sofia

Rose disse...

Um final de certo modo, conhecido. Obrigada por partilhares essa história, que no fundo, acabou por ser um desabafar da perda e do sentido da vida ^^